Sociedade vive uma nova formatação de poder e recria a comunicação

Por Rodrigo Cogo*


A sociedade contemporânea é marcada por estruturas de comunicação e informação profundamente influenciadas pelos novos sistemas tecnológicos, que permeiam o fazer e o agir social das pessoas e criam novos consensos, estabelecem novas verdades e novas formas de sociabilidade. Isto provoca uma nova formatação do poder, embasada principalmente pela grande interatividade entre redes de informação, comunicação via satélite, internet e TV, tornando a aldeia global totalmente interconectada. A Associação Brasileira das Agências de Comunicação (www.abracom.org.br) e a PR Newswire do Brasil, no quinto ano da vigência de uma parceria pela qualificação dos profissionais da área, buscaram inspiração nesta temática e desenvolveram mais um “Encontro de Comunicação Corporativa”, desta vez com o jornalista Caio Túlio Costa no dia 18 de junho de 2009 no L´Hotel em São Paulo/SP. Ele acaba de lançar, pela Jorge Zahar Editora, o livro “Ética, Jornalismo e Nova mídia – Uma Moral Provisória”, resultado de sua tese de doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo/ECA-USP.


Em um mercado saturado de informações digitalizadas, produzidas e veiculadas também pelo consumidor, a pergunta é: verdade, justiça e ética ainda são os pilares do jornalismo? Esse livro não apresenta um manual com listas de certo e errado nem oferece lições de conduta para os profissionais da área. Longe disso, investiga como o jornalismo tem sido praticado do ponto-de-vista da moralidade – desde seu surgimento até os dias de hoje, marcados por um intenso fogo cruzado de novos meios de comunicação. A pedra fundamental da reflexão sobre a imprensa foi lançada em 1690, quando o alemão Tobias Peucer defendeu uma pioneira tese de doutorado sobre o tema. Em poucas páginas, ele já apontava questões que continuam na ordem do dia e são abordadas com impressionante senso crítico. Entre elas destacam-se as contradições do jornalismo como “negócio” e, ao mesmo tempo, atividade de interesse público; os limites da objetividade e da imparcialidade; a busca da precisão num cotidiano premido pela urgência; os ideais de verdade, justiça e credibilidade. O grande desafio do jornalismo no século XXI é manter sua identidade em uma rede saturada de informações emitidas pelos mais diversos meios. Nessa rede intrincada, nunca foram tão tensas as relações entre “fonte”, jornalista, empresa de comunicação e público – não por acaso, ética e antiética têm andado assustadoramente próximas.


Algumas questões que projetam mudanças significativas foram apontadas pelo palestrante, como episódios que não vêm sendo bem processados pela indústria da comunicação tradicional. Um dos pontos seria a alteração de paradigma da composição das empresas na área, saindo da prevalência do caráter familiar e indo para um panorama de concentração sob grandes capitais transnacionais. Costa vê o comando da produção de conteúdo mundial nas mãos de poucos conglomerados, como Time Warner, Disney, Bertelsmann, News Corp, Viacom, Sony e Google. Citando Habermas, diz ainda que “há uma completa desagregação da esfera pública”, e os partidos políticos têm um papel cada vez menor, assim como os sindicatos e as universidades. E complementa: “estamos vivendo um momento de modernidade líquida, onde os conceitos ficam relativos, mesmo os éticos e morais”. A dispersão das pessoas  em individualidades é outro ponto que faz com que a comunicação deixe de ser feita no formato broadcast e os atores principais mudem, porque ela fica multidirecional e bilateral. “As pessoas têm o poder de mídia”.


Ao relacionar filosofia, dramaturgia e literatura, estabelecendo ligações entre eventos distintos – como o julgamento de Sócrates, na Antigüidade, e recentes atentados promovidos em São Paulo pelo crime organizado ou o embate midiático do então presidente espanhol Aznar no atentado em Madrid –, Caio Túlio Costa sustenta que, apesar de todas as novidades na mídia, o modo de fazer jornalismo não mudou. O que teria mudado é a forma de comunicação e o grau de importância atribuído ao jornalista, já que agora qualquer  indivíduo pode criar e veicular produtos noticiosos, atingindo on-line milhões de pessoas. Essa possibilidade sim seria inédita e espantosa. Mais do que nunca, portanto na opinião dele, é oportuno manter em pauta uma discussão aprofundada sobre ética, jornalismo e novas mídias.


PESQUISA – Caio mostrou resultados de uma pesquisa do Pew Internet & American Life Project (www.pewinternet.org), que aponta o celular como principal ferramenta de comunicação para a maioria das pessoas até 2020, ano em que os impasses entre tecnologia e direitos autorais ainda não deverão estar resolvidos. Os pesquisados demonstram-se céticos quanto ao poder de influência da internet na tolerância social, mas vêem a transparência como base de reforço da integridade individual como uma possibilidade. A previsão é haver um uso acentuado de games, ambientes virtuais e comandos de voz e toques de tela, numa onipresença da comunicação, sobremaneira pelo caráter móvel. O estudo ainda demarca a extinção da divisão de tempo entre vida profissional e pessoal. “Afora a convergência, que não é um fator tecnológico, mas sim um comportamento do cidadão, segundo suas escolhas de conexão”, acrescenta.


Segundo Costa, esta nova configuração de tecnologias de mídia, informação e conhecimento pode ser chamada de “príncipe eletrônico”, pois se em Maquiavel o príncipe representa o grande líder político e militar e se em Gramsci o príncipe moderno é próprio partido político que funciona como grande articulador das massas em vista da construção de uma nova hegemonia, atualmente as novas tecnologias de mídia se apresentam como um intelectual coletivo e orgânico um príncipe eletrônico. Ele então analisa a influência desta nova configuração do príncipe sobre as esferas, política, social e econômica as conseqüências desta influência na vida das pessoas e nas relações sociais. Os resultados alcançados por seu estudo mostram que o poder e a força das novas tecnologias de mídia condicionam mudanças, criam e destroem valores e atuam como um poderoso instrumento político e econômico e por isso faz-se necessário uma atitude crítica e mesmo uma mobilização da sociedade organizada no sentido de resgatar a função democrática da mídia de oferecer informação, reflexão e entretenimento com transparência e imparcialidade.


Sobre a extinção da obrigatoriedade do diploma em Jornalismo para atuação em veículos de comunicação, segundo decisão final do Supremo Tribunal Federal divulgada na noite anterior, ele rememora a campanha iniciada pelo Grupo Folha, onde trabalhava, no início dos anos 80, exatamente pela flexibilização das leis em torno do tema. Para ele, “criou-se uma indústria de escolas de comunicação que entregam alunos sem absolutamente capacidade do estudo das questões morais e éticas para exercer a função com criticidade e distanciamento”. Já há alguns anos as pessoas comuns seriam produtoras de informação, assinando seus textos independente de porte de diploma, embora seja preciso discutir alguns novos problemas, como a precisão da apuração. O executivo ainda aponta que o mercado de produção de jornal está perdendo circulação no mundo inteiro e vai precisar se rever, inclusive quanto a canais de difusão. Afinal, a nova geração dilui sua atenção em várias plataformas ao mesmo tempo. De todo modo, diz ele, “nada aponta que o jornal tradicional vai acabar, mas é preciso fazer ajustes e buscar novas interfaces”. Jornais gratuitos seriam bem-vindos, pelo próprio crescimento do contingente de leitores, e não seriam rivais dos jornais tradicionais. Ambos contratam jornalistas com a técnica e a formação requeridas para confiabilidade da notícia, o que também precisa valer para o jornalismo-cidadão. No entanto, em todos os casos, pode haver “informação descredenciada”, com eventuais erros e métodos questionáveis de obtenção de dados, como câmeras escondidas e omissão de identidade.


Com o intuito de mapear o território e os limites éticos e morais numa indústria da comunicação que passa por mudanças estruturais, sua tese recupera dilemas capazes de nortear a atuação do comunicador e aprofunda a discussão da moralidade na mídia, por conta de um vácuo na formação do comunicador em relação à ética e à moral na perspectiva da história do conhecimento. Com o uso de exemplos clássicos da literatura, da dramaturgia ou da própria comunicação, o resultado é um itinerário que perpassa momentos relevantes para a mídia com o objetivo de revelar diferenças entre conceitos sólidos da modernidade e a fluidez que estes mesmos conceitos encontram tanto na modernidade quanto no que se convencionou chamar de pós-modernismo. A revolução é tamanha que há constatações de lingüistas norte-americanos indicando que hoje analfabetos podem viver tranqüilamente através da decodificação de símbolos, onde o vídeo ganha cada vez mais espaço. Aliás, ele anuncia: “a linguagem do futuro é a linguagem multimídia, não há dúvida nisto. É uma virada lingüística”. As próprias organizações, antes tidas somente como fontes, evidenciam a urgência da reinvenção dos veículos de comunicação, porque agora elas podem usar seu poder de mídia, vide o caso do blog da Petrobras, assunto em que tem uma posição bastante forte: “a reação da Folha, do Globo e do Estado é extremamente catatônica e ridícula”.


TRAJETÓRIA – Caio Túlio Vieira Costa, nascido em 1954 em Alfenas/MG, é jornalista, professor de ética jornalística na Faculdade Cásper Lí­bero/SP, doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e executivo na área de comunicação. Trabalhou durante 21 anos no Grupo Folha onde foi editor da Folha Ilustrada; secretário de redação nos anos 80 (quando informatizou a redação e ajudou a implantar o projeto Folha); correspondente na Europa, baseado em Paris; primeiro ombudsman da imprensa brasileira; criador da Revista da Folha e fundador e diretor geral do UOL, o Universo Online, o primeiro provedor de internet de grande porte da América Latina. Também presidiu a Fundação Semco, uma inciativa do empresário Ricardo Semler, onde ajudou a criar o Instituto DNA Brasil, um think tank voltado para as questões estratégicas do país. Em junho de 2006 assumiu a presidência do Internet Group, então uma empresa da Brasil Telecom que uniu os portais e serviços do iG, iBest e BrTurbo. Ficou no cargo até janeiro de 2009 quando a Oi assumiu o controle acionário da Brasil Telecom e do próprio iG. Neste mesmo tempo foi contratado como consultor de planejamento e desenvolvimento multimídia da Oi.


É autor ainda de “O que é Anarquismo” (Brasiliense, 1981), “Cale-se” (A Girafa, 2003) e “Ombudsman – O Relógio de Pascal” (Geração Editorial, 2006; Siciliano, 1990). É co-autor da primeira versão do Manual Geral de Redação da Folha (1984), tem artigos em livros e revistas acadêmicas sobre comunicação e organizou livros do Instituto DNA Brasil tais como “50 Brasileiros param para pensar o país” e “Somos ou estamos corruptos?”. Caio Túlio também ministrou aulas de Jornal Laboratório no departamento de Jornalismo da PUC de São Paulo e um curso na pós-graduação da ECA-USP. Ele escreve regularmente no próprio portal – www.caiotulio.com.br -, de onde também é acessado seu blog.


*Rodrigo Cogo é gerenciador do portal Mundo das Relações Públicas (www.mundorp.com.br).



FONTE: Abracom

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