Hora de substituir a propaganda pela notícia

Carlos Chaparro*

O XIS DA QUESTÃO – O governo deveria aproveitar a crise para rever, de imediato, suas políticas e ações de comunicação. Destrua, ministro Gushiken, ou pelo menos questione, a sua obstinada fé na propaganda institucional, que ajudou a encher as burras e as malas desse tal Marcos Valério de Souza. Experimente, ministro, substituir a propaganda, regiamente paga, pela estratégia jornalística da notícia, que não depende do dinheiro nem de invencionices.

1. Vergonha e amargura
A cada show de Roberto Jefferson, perdem vigor, convicção e inteligência as tentativas petistas de desqualificar as acusações feitas pelo deputado. No sentido inverso, cresce a figura e o poder de convencimento do acusador. Ontem (quinta-feira, 30 de junho), na CPI em que depôs, Jefferson teve reverenciadas, por parlamentares do porte de Pedro Simon e Denise Frossard, a coragem, a lucidez, a argúcia  e capacidade de argumentação da sua performance.  Recebeu, até, tratamento de herói nacional.

Depois de tanto mentir ao longo da carreira política, Roberto Jefferson escolheu agora o argumento da verdade como  estratégia de ação, em defesa do próprio mandato, ameaçado. Ninguém mais duvida disso. Na arena dos embates – que não está do no espaço físico Congresso, mas no espaço abstrato da TV Senado –  com precisão de dar inveja a jornalistas.e segurança que amedronta, ele acusa, aponta pistas, cita episódios, nomes, datas, horários, locais, frases e autores. E nem provas precisa mais apresentar, porque elas já brotam aos borbotões, pelas vias formais e informais das várias linhas de investigação.

No novo cenário político no Brasil que as acusações de Roberto Jefferson produzem, cresce um sentimento nacional de vergonha. Temos um sistema político hipócrita, aliado da corrupção, nutrido por ela, e a ela servindo, em estruturas de poder que sugam o povo, sob discursos mentirosos de empolgado civismo. Governo após governo. É isso que se escancara, dramaticamente, nas sessões em que Roberto Jefferson brilha como senhor do Bem. Estamos enojados, diante das vísceras expostas. E as vísceras nojentas que nos envergonham são as de um governo em que tantos acreditaram.

Por isso, com o sentimento de vergonha, cresce também a amargura social da desilusão. Lula levou-nos os votos, com a promessa de fazer do Brasil um país novo. Pagou-nos com a semeadura de vicejante esperança. Mas, agora, depois de quase três anos de promessas  e bem irrigada propaganda enganosa, descobrimos que nada de substancial mudou. 
É frustrante.

2. Alerta inútil
Com ou sem culpa, Lula caiu nas armadilhas das alianças, que têm como moeda de troca os cargos em áreas do governo por onde corre o dinheiro. Deixou que o projeto de poder do seu partido montasse nos palácios uma estratégia de ocupação de espaços pela via de um furioso empreguismo. E com a pedagogia do dízimo, o partido fez disso a fonte de receita que lhe encheu os cofres – de dinheiro e tentações.

Remoendo estas mistura de idéias e sensações, reencontrei um texto de dois anos atrás, mais precisamente, escrito na terceira semana de setembro de 2003, quando quase tudo ainda era esperança.

Hoje, o texto soa como alerta inútil:
(…) Há um claro desgosto pelos rumos do governo. Lamenta-se com maior ênfase a política de alianças à direita e o rigor neoliberal da política econômica. Mas, ao mesmo tempo, ninguém apresenta receita melhor – e, daí, o sabor de frustração que começam a ter as conversas sobre o governo de Lula.

Sem perder a perspectiva do apoio e da luta, porém. Porque todos concordam num ponto: depois da esperança que abriu em sorrisos a fisionomia do povo brasileiro, um fracasso de Lula pode levar o país ao caos.

Será sem dúvida mais difícil construir o sucesso no governo do que foi conquistar a arrasadora vitória eleitoral.

Nas encruzilhadas (econômicas, políticas, éticas e sociais) do Brasil de hoje, qualquer tarefa de governo constitui risco de enorme frustração. Principal complicador: em quantidade, diversidade e gravidade, os problemas têm proporção inversa à da escassez de dinheiro. Outro complicador continua a ser o da corrupção. Apesar dos mecanismos de vigilância e do rigor da atual legislação, o ralo da corrupção está aberto, bem aberto, sugando recursos que fazem falta aos programas de educação, saúde e reforma agrária, problemas centrais da pobreza brasileira.

Além do mais, o próprio jogo da democracia, feito de conflitos e acordos que exigem negociações e concessões, retarda, quando não deforma, as soluções prometidas na campanha eleitoral.

E porque, para a composição favorável na relação de forças dos confrontos políticos, muitas são as concessões a fazer e as acomodações a aceitar, Lula e o seu governo começam a investir em filosofias e esquemas compensatórios de comunicação propagandística, com ganas perigosamente exageradas.

3. Monstro encoberto
Com ou sem propósitos conscientes, por competência ou incompetência, as ganas propagandísticas serviram para encobrir o monstro que crescia dentro do governo. O monstro das alianças fisiológicas, do empreguismo e da corrupção. Mas a fumaça da propaganda se dissipou e o monstro começa a aparecer. Nu.

De alguma forma, o governo colhe o que plantou. Afinal, o dinheiro que encheu as burras e as malas desse tal  Marcos Valério de Souza vem, pelo menos em parte, das tetas governamentais nutridas pelos contratos de propaganda e publicidade.

*****

Não se deseja o fracasso do governo Lula. Mas, por causa da Nação e não do governo Lula, é preciso que as forças organizadas direta ou indiretamente envolvidas nesta crise, e que nela interferem, ponham sabedoria e honestidade em suas ações.

Os cenários são complexos demais para conjecturas mais amplas. Mas, para a reflexão e o debate, proponho duas idéias:
1) A Justiça, a Polícia Federal, o Ministério Público, as CPIs e a Imprensa devem agregar, ao rigor do rabalho de investigar e ao dever de informar, a prudência do respeito à lei, para evitar que na crise grasse um certo arremedo de macarthismo, aqui e ali já se insinuando. Há valores da democracia e da ética que não devem correr riscos nem sofrer danos derivados da tentação de se criar um clima de repressão pelo amedrontamento, por parte daqueles que, tendo o poder legal de invadir espaços privados, inquirir, prender e/ou denunciar pessoas, podem ceder à tentação de trocar a inteligência da investigação pela cegueira da perseguição exibicionista.

2) O governo deveria aproveitar a crise para rever, de imediato, suas políticas e ações de comunicação. Substitua, ministro Gushiken, a sua obstinada fé na propaganda institucional, regiamente paga, pela estratégia jornalística da notícia, que não depende do dinheiro nem de invencionices

 

* Publicado no site www.comunique-se.com.br

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