Assessor de imprensa e jornalismo (II)

Outra questão muito interessante de discutirmos neste espaço envolve o dilema permanente na vida dos assessores de imprensa, no seu relacionamento com a os colegas das redações.    

   

Numa palestra recente que deu num Seminário de Comunicação Corporativa, em São Paulo, o colega José Paulo Kupfer, editor da coluna Nomes e Notas, da Gazeta Mercantil, disse acreditar que o melhor caminho para os assessores estreitarem seu relacionamento com as redações é incorporar o espírito de fonte de informação.    

   

Sua ponderação faz sentido: o jornalista de redação está sempre atrás das fontes e não dos intermediários, que até ajudam no processo, mas são dispensáveis quando se consegue o acesso direto. Seu raciocínio é o de que, lidando com um universo muito grande de informações, o assessor tem todas as condições de ser parte integrante desse processo, passando aos colegas de redação não só aquelas informações de seu próprio interesse ou da empresa que assessora, mas também informações do interesse dos jornalistas.    

   

Ao se qualificar também como fonte, estará conseguindo consolidar e fortalecer sua atuação, criando o que Zé Paulo chama de uma espécie de banco de confiança, em que as partes vão depositar ou sacar os créditos em função do relacionamento estabelecido ao longo do tempo. E a moeda é uma só: informação.   

   

Na recente história da assessoria de imprensa no Brasil, os assessores sempre se colocaram prioritariamente como intermediários da informação. Talvez pela influência do trabalho em redações, de onde saiu a maior parte dos profissionais, onde se pratica apenas o lado da arguição – tendo alguém do outro lado respondendo.    

   

Só que os tempos mudaram e, como tal, também a comunicação corporativa. As empresas, ao menos em tese, desejam ter em seus quadros, na área de comunicação (e de resto em todas as áreas), os profissionais mais capazes, qualificados e bem relacionados. E as redações, que são de um modo geral as interlocutoras preferenciais de qualquer assessoria, valorizam, dentre elas, as que garantem as melhores e mais confiáveis informações e que têm sempre alguma boa dica no gatilho.   

   

O que o Zé Paulo fez no seminário foi dar um caminho de aproximação, até por entender que há muitos colegas na contramão da história, continuando a atuar como meros intermediários da notícia e das fontes. Se não mudarem, vão acabar ficando pelo caminho, pois o mercado não olha com muito bons olhos para esses profissionais. E não sou eu quem diz, são dezenas de colegas que, em posições estratégicas nas redações, tecem profundas críticas ao modelo de assessoria desenvolvido no Brasil.   

   

Qualquer jornalista mantém o canal aberto com quem tem informações para dar, numa relação de mútua confiança. Nesta troca, quando o assessor precisa divulgar alguma coisa do interesse de sua instituição acaba merecendo um crédito, pelas informações "desinteressadas" que passou ao longo do tempo.    

   

Isso vale tanto para os colegas assessores de empresas e instituições e também das agências, já que estas têm até chances muito maiores de atuarem como fontes, por atenderem diferentes clientes de múltiplos setores. São (ou podem ser) fontes inesgotáveis de informações e dicas para a imprensa.   

   

Também aqui, como vemos, os profissionais que estão do chamado outro lado do balcão continuam a atuar como jornalistas, utilizando a ferramenta do jornalismo, mas sem fazer jornalismo. Isto quem fará são os colegas que, de posse da informação, vão efetivamente transformá-las em notícias.
FONTE: Comuniquese

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