Sustentabilidade como fator competitivo


Por Ciro Dias Reis



Na primeira semana de 2007 o poderoso executivo que pilotava uma empresa gigantesca com faturamento anual de US$ 81,5 bilhões perdeu o emprego. Seu nome é Robert Nardelli e o cargo que ocupava era o de CEO da Home Depot, maior empresa do mundo na venda de materiais e produtos para o lar, proprietária de 2.104 lojas que empregam 355 mil pessoas. A razão da demissão do executivo: seus altos salários e benefícios (US$ 245 milhões em cinco anos) em contraste com o tímido desempenho das ações da companhia, fatos que fermentaram a irritação dos acionistas que o derrubaram.


O caso da Home Depot ilustra bastante bem o atual cenário corporativo que exige das empresas, de forma crescente, harmonia e equilíbrio entre resultados econômicos e posturas responsáveis do ponto de vista ambiental e social  – o tripé de compromissos que traduz o conceito da sustentabilidade e pressupõe ainda o exercício da ética nos negócios e a adoção de princípios de governança corporativa.



Visto em perspectiva, 2006 foi um ano que acentuou o processo de revisão de conceitos por parte de grandes empresas, em favor de abordagens direcionadas à sustentabilidade. Outro gigante americano, Wal-Mart, maior rede de varejo do planeta, divulga incessantemente que está querendo mudar. Dona de 6.600 lojas no mundo todo e com vendas anuais de US$ 312 bilhões, a empresa é tradicionalmente criticada pelo uso de sua musculatura nas relações com funcionários, fornecedores e comunidades onde se instala. Ela criou recentemente um programa de metas destinado a melhorar sua imagem. Esse programa inclui, entre outros tópicos, a aposta na comercialização de alimentos orgânicos, a adoção de uma política ambientalmente correta no tocante aos muitos milhões de embalagens que movimenta em suas lojas, além do esforço de venda de 100 milhões de lâmpadas de menor consumo energético em 2007. 


 


A essência do que é entendido como sustentabilidade  movimentou o setor financeiro no ano passado. Instituições americanas como o Citigroup e Goldman Sachs, suíças como Crédit Suisse e Swiss Re e inglesas como HSBC e Barclays ampliaram a análise de fatores ligados ao aquecimento global em suas políticas de empréstimos, investimentos e estratégias de negócios de forma geral. A Goldman Sachs está colocando US$ 1 bilhão em investimentos voltados para energia limpa. Citigroup, JP Morgan Chase e Morgan Stanley têm publicado  análises relativas à performance financeira do mercado de crédito de carbono.


 


Investidores institucionais também colocaram na tela de seus radares novas variáveis. Carbon Disclosure Project é uma coalizão de investidores institucionais de todo o mundo que têm sob sua responsabilidade a gestão de portfólios que somam estratosféricos US$ 31,5 trilhões. Respaldada por esse alto cacife, a organização tem pressionado grandes empresas a tornar transparentes riscos e oportunidades de suas atividades relacionadas às mudanças do clima no planeta.


 


Ao mesmo tempo a NAIC, associação americana que atua na regulamentação da atividade de seguros, criou uma força tarefa para examinar como o aquecimento global pode impactar seu setor. A preocupação tem lógica: os furacões dos dois últimos anos no sul dos Estados Unidos (cuja multiplicação, em grande medida, tem sido atribuída às mudanças climáticas do planeta) causaram prejuízos que levaram ao desembolso de US$ 75 bilhões por parte de seguradoras. Desse total, apenas o Katrina foi responsável por US$ 45 bilhões. Simultaneamente, a NAIC incentiva o setor a criar novos produtos em linha com a atual conjuntura, como as garantias de crédito de emissão de carbono.


 


Uma seguradora japonesa foi mais longe: a Tókio Marine & Nichido Life tomou para si a tarefa de reflorestar 7.500 acres na Indonesia, Tailândia e outros países da Ásia. O objetivo é minimizar as perdas decorrentes dos crescentes riscos relacionados a ciclones (cuja ocorrência na região, da mesma forma, é atribuída a mudanças climáticas).


 


Atentas aos reclamos e pressões de alguns grupos de stakeholders, empresas de tecnologia como Dell, HP e Apple aceleram seus programas destinados a construir equipamentos dotados de componentes ambientalmente mais adequados, que consumem menos energia e podem, ao final de sua vida útil, ser reciclados. A Intel, que utiliza na fabricação de seus processadores elementos químicos que impactam a atmosfera, prevê reduzir essas emissões em 10% até 2010 comparativamente às emissões que realizava em 1995.  Movimentação também no setor automobilístico. Carros elétricos, híbridos, flexfuel ou capazes de utilizar combustíveis alternativos nunca foram, como em 2006, levados tão a sério. As duas líderes do mercado mundial GM e Toyota (e não só elas), prometem novos produtos nesse campo.


 


Empresas do setor químico também se mobilizam, Os países europeus são responsáveis por 31% dos produtos químicos do mundo, e foi nesse contexto que a Comunidade Européia decidiu criar um plano de ação para incentivar a inovação no setor para torná-lo cada vez mais “verde”. Isso significa processos capazes de garantir produtos que gerem menos lixo e resíduos, sejam mais biodegradáveis e consumam menos energia na sua fabricação. A alemã BASF, que atua nos cinco continentes e fatura mais de US$ 45 bilhões por ano, exercita sua visão de sustentabilidade por meio do Eco-Efficiency Analysis. Trata-se de um processo destinado a analisar e otimizar o uso de matérias-primas e energia em seus processos produtivos, bem como monitorar o impacto de atividades da empresa na água e na atmosfera.


Um compromisso similar, do outro lado do Atlântico, é o da GE, empresa que fatura US$ 150 bilhões por ano atuando em setores tão diferentes como automotivo, aviação, equipamentos médicos e finanças, entre outros. Seu programa EcoImagination se traduz no compromisso de criar produtos e serviços cada vez mais inovadores, eficientes e ambientalmente corretos. A GE deve dobrar seus investimentos em tecnologias limpas até 2010, aportando  US$ 1,5 bilhão nessa rubrica. Até 2012 a empresa pretende reduzir suas emissões de gases poluentes em 1%, e argumenta que se nenhuma iniciativa fosse tomada nessa direção suas atividades globais aumentariam as emissões em 40% no mesmo período.



Empresa com mais de 200 anos de existência, a DuPont se impôs o compromisso de manter uma política de inovação que privilegia a criação de produtos capazes de atuar em linha com “desafios de segurança, meio ambiente, energia e clima”. A DuPont opera em mais de 70 países, tem vendas anuais na casa dos US$ 27 bilhões e criou um programa chamado Metas de Sustentabilidade 2015. Ele prevê ações concretas para todas as áreas da companhia, do marketing às atividades de pesquisa e desenvolvimento, até aquele ano. Em 2015 a empresa espera adicionar US$ 2 bilhões ao seu faturamento apenas com a fabricação e venda de produtos e soluções caracterizados pela eficiência energética e/ou significativa redução na emissão de gases poluentes.


Mas as empresas, na verdade, são cada vez mais as pessoas que as compõem. Por isso, cabe aos executivos em posição de liderança decifrar os enigmas do atual quadro de mudanças do universo corporativo para que não sejam devorados no processo como Robert Nardelli, ex-todo-poderoso da Home Depot. 



Deslizes corporativos são cada vez mais ameaçadores. Aniquilam reputações, derrubam o valor das ações, traem a confiança de consumidores e parceiros de negócios. Empresas e executivos são agora julgados pelo que realmente fazem e não pelo que frequentemente prometem. Ou, como resume a revista americana Fortune num misto de ceticismo e otimismo em relação às promessas de mudanças do CEO Lee Scott para sua rede Wal-Mart: “Ele está falando sério?”



Publicado no Jornal Valor Econômico


 


 


 


FONTE: Valor Econômico

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