As empresas e o programa Fome Zero

Há tarefas que cabem diretamente aos governos



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse conjugando esperança com mudança e lançou para toda a sociedade o desafio de fazer a economia brasileira crescer, superando seus perversos indicadores de desigualdade e injustiça social.



Esse desafio toca diretamente os agentes econômicos e, em particular, os empresários do nosso país. É uma oportunidade ímpar para que eles tornem efetiva sua responsabilidade social e assumam na plenitude seu papel de empreendedores e de cidadãos.



Lançado pelo presidente Lula, o Programa Fome Zero é o carro-chefe de um conjunto de iniciativas e representa um chamamento para a ação coletiva no combate à desigualdade social na sua forma mais dramática e perversa: a exclusão dos direitos fundamentais, inclusive os de se alimentar e de trabalhar. Segundo os estudos do Fome Zero, calcula-se que existam 46 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, ou seja, 9,9 milhões de famílias com renda abaixo de R$ 183,81 (com 4,7 pessoas por família).



Certamente, o crescimento econômico articulado com a promoção de justiça social é de interesse das empresas, pois está diretamente relacionado ao seu desempenho e sucesso dos negócios, e à concretização das condições de exercício da cidadania para seus acionistas e dirigentes. A distribuição de renda pode tornar o Brasil um dos maiores mercados do planeta, dinamizando e potencializando nossa economia.



O Programa Fome Zero parte de propostas mais gerais, estruturantes, para ir reduzindo o foco até as ações de caráter local, passando pelas políticas específicas que agem sobre a quantidade e a forma do consumo de alimentos. Em todos esses níveis, há tarefas que cabem diretamente aos governos, mas existem outras que poderão ser assumidas em parceria pelos diferentes segmentos da sociedade.



Às empresas, cabe um papel de especial relevância, por seu poder econômico e sua capacidade de elaborar e implementar soluções. Para incluir-se nesse grande movimento, cada organização – a partir dos princípios da responsabilidade social empresarial – deve refletir sobre qual pode ser sua participação. Olhando para seus recursos, seus equipamentos, os produtos que fabrica e sua rede de relações (funcionários, fornecedores, clientes, consumidores, concorrentes e demais parceiros, e também com as comunidades onde atua) muitas alternativas se apresentarão.



O Fome Zero elenca uma série de ações que podem ser consideradas: ajudar no financiamento de agências de micro-crédito solidário, adotar iniciativas de suplementação de renda e apoio financeiro, contribuir para o fundo que vai bancar a distribuição de cartões-alimentação, incentivar funcionários a participar como voluntários nas várias ações propostas, ampliar o Programa de Alimentação ao Trabalhador, subsidiar a criação e manutenção de bancos de alimentos, doar gêneros alimentícios ou assegurar apoio logístico à sua distribuição, colaborar com as instituições que atendem à população alvo do programa, e ajudar na implantação de restaurantes populares. Essas são algumas das muitas propostas contidas no programa, voltadas diretamente para a erradicação da fome.



De modo complementar, mas não menos importante, incluem-se todas as iniciativas voltadas para a inclusão social das populações marginalizadas. Elas dizem respeito a questões que precisam, urgentemente, ser extirpadas de nosso cenário social, como o trabalho infantil, o trabalho escravo, e a prostituição infantil.



Em relação a este último aspecto, penso, por exemplo, que as empresas de bebidas e refrigerantes poderiam investir num trabalho junto à sua rede de distribuidores e vendedores que identificasse todos os locais em que ocorre o favorecimento à exploração sexual de crianças e adolescentes, impondo restrições que dificultem sua proliferação ou permanência.



Para subsidiar as empresas que pretendem integrar-se a essa grande mobilização, colaborando para a erradicação da fome no Brasil, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social estará lançando o manual "Como as Empresas podem apoiar e participar do Programa Fome Zero". É uma das maneiras que encontramos de fazer a nossa parte. Espero que cada empresário ou executivo que leia este artigo tome como resolução de ano novo a determinação de começar desde já a fazer a sua.



*Oded Grajew é diretor-presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Conselheiro da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, idealizador do Fórum Social Mundial e assessor especial do Presidente da República


FONTE: Valor Econômico

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